Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2011

CAFÉ DOS BLOGUES: O DIA SEGUINTE

Poucas situações permitem que façamos um antes, um durante e um depois, porque o que vamos vivendo não tem sentido nenhum. O sentido é o que vamos dando ao conjunto de acontecimentos que vamos experimentando. Aparece, por exemplo, quando contamos o que nos aconteceu, vê lá tu, nem vais acreditar. E contamos estas histórias porque precisamos de, no mínimo, uma estrutura em que reconhecemos um antes, um durante e um depois. Porquê? Porque somos assim. Queremos explicações porque são elas que nos sustentam, que nos fazem levantar da cama de manhã, que nos obrigam a reagir à tarde, e nos levam a trocar opiniões ao fim da tarde na Almedina do Atrium Saldanha.

 

Ontem reunimo-nos para falar sobre o nosso tema mais querido que são os blogues e suas variantes, como o visual Facebook e o limitado Twitter. Numa tentativa de controlar o que é controlável, organizei a conversa em três partes. A primeira era constituída por perguntas de carácter geral e particular sobre os blogues dos convidados. Para a segunda parte, escolhi analisar dois temas falados na blogosfera e não só. O primeiro seria a canção dos Deolinda, «Parva Que Sou». O outro, o dos velhos que morrem sozinhos: uma descoberta que o país fez por causa de uma senhora que esteve morta em sua casa durante quase nove anos, tendo sido encontrada por causa de uma penhora. Interessava-me perceber se o interesse pelos dois temas por parte dos blogues e das redes sociais tem que ver com o facto de o primeiro ser útil e o segundo nem por isso. Há uma questão de interpretação no primeiro caso que não se coloca do mesmo modo no segundo. No caso dos velhos que morrem sozinhos não há lugar a interpretações, mas a indignação. E a indignação tem limites. Os Deolinda podem ser «usados» nos blogues, nas redes sociais. Os velhos que morrem sozinhos, não.  A diferença vem de uma intuição de falarmos mais daquilo que podemos manejar e menos do que nos ultrapassa (e por isso nos cala), o que não é necessariamente mau. Esta divisão artificial não teve nenhum efeito, talvez por não ter sido exposta com convicção. A terceira parte seria dedicada a perguntas do público e às respostas dos convidados.

 

A Fátima Rolo Duarte começou por explicar que o seu blogue é trabalho, dá trabalho e dá-lhe gosto. É útil de muitas maneiras, visto que o F World é o seu portfólio e um modo de vida. A Fátima chama-lhe trabalho. Eu chamo-lhe criação artística. Um senhor mesmo querido, que já vi em qualquer lado, sentado à nossa frente e à esquerda, disse que o blogue da Fátima podia estar num centro de exposições. Em suma: ela trabalha, nós contemplamos a obra e agradecemos. E isto acontece porque a Fátima é profissional: sabe o que faz, gosta do que faz, e por isso explora, com muita curiosidade, os meios que tem ao seu alcance. Fá-lo muito bem, porque é assim que ela é. Ser profissional ganha aqui um sentido mais sólido, mas não sou capaz de explicar mais. A partir de uma observação razoável da obra da Fátima, é fácil deduzir que gosta do Facebook porque dá para roubar fotos dos murais abertos, e que não gosta do Facebook, porque não dá para «rebentar com o template». Já gosta mais do Twitter, o que é bom para os dois twitteiros presentes na mesa. Do que a Fátima não gosta é do fenómeno Markl, cujo engraçadismo desengraçado não entende; do jornalismo acrítico, e da opinião assinada, mas sem uma vida que a aguente. A Fátima não compreende a ausência de homenagens por ocasião da morte de Gérard Castello-Lopes nem o excesso de despedidas ao Senhor do Adeus, com todo o respeito. Contou a história que levou à expressão já histórica de Rui Bebiano, «rotativa de ips», e elogiou o Miguel Abrantes, que não se apresentou, e o Valupi, que se apresentou. A Fátima quis falar de política, mas alguém não deixou. A Fátima tem em vídeo isto tudo e muito mais.

 

O maradona contou que um dia viu um anúncio de página inteira ao site do Miguel Esteves Cardoso, o Pastilhas. Em 2001, na altura com três heróis portugueses - o Herman José, o Vasco Pulido Valente e o Miguel Esteves Cardoso -, escreveu a sua primeira frase no computador. Foi uma pergunta ao MEC, à qual o Doutor Pastilhas respondeu. «Achei fascinante», disse. A partir daí participou assiduamente no site que mais blogues deu ao país. Os blogues dos comentadores do Pastilhas constituem uma parte considerável da selva blogosférica em 2003, a par d'A Coluna Infame e do Blogue de Esquerda. O maradona escreve no A Causa Foi Modificada enquanto vê a bola e passa um bom momento assim. É como se estivesse a jogar um jogo no computador. Não gosta do Facebook, não sabia que Gérard Castello-Lopes tinha morrido, e gosta muito da falta de respeito dos comentadores do seu blogue. Deixa-os em paz, aprende com comentários elaborados e conhecedores de assuntos que desconhece e sobre os quais pensa à nossa vista. Só uma vez apagou um comentário. Gosta do nick Edgar Allen Prost. Tem angústias em relação à constituição de um arquivo. Custa-lhe ver o que escreveu por aí, porque afinal de contas diz coisas que dependem do momento; daquele em que é necessário para ele, maradona, serem ditas, que é algures entre a bola e o Twitter, em que também participa. Passado o momento, é preciso esquecer o que foi dito. E «esquecer» no blogue equivale a «apagar». Embora entendam a intenção expressa pelo autor, os fãs maradonianos têm impressa a sua obra de tal maneira na alma que dispensam o suporte, seja ele qual for. O maradona não acredita que a juventude de agora tenha problemas diferentes da juventude de há trinta anos, e não lhe parece que a geração dos seus pais, com empregos únicos e fixos para toda a vida, tenha sabido apreciar a sua condição. Prefere o emprego precário com três a quatro por cento de desemprego, e acha muito mais preocupante haver 11 por cento da população activa desempregada. O maradona respondeu à única pergunta enviada para o bloguedoscafes@sapo.pt de o mais peor, que rezava assim: «Toda a gente sabe que o maradona é o grande escritor que temos. Mas que gostaríamos de ter mais. A pergunta: porque o maradona, que tantos e tão bons livros lê, desdenha escrevê-los? Porque cargas d'água de colónia, o maradona não escreve livros, muitos e grossos? A preferência seria romance ou livro de ensaio. Ambas as coisas? Melhor ainda. Abraço de quem ama-te muito, maradona, a ti e a senhora tua mãe. Assinado, O mais peor». O maradona respondeu que seria completamente impossível escrever livros porque precisa de ver despachado o que tem para dizer; cada post é um nível do jogo de computador que vai passando. A analogia sugere que o que faz depende do momento, e nele é resolvido. Mas também sugere uma ideia de continuidade, complexificação e aperfeiçoamento. Citando o autor, diria que «vai correr tudo bem».  

 

O público interveio, foi generoso, esteve à vontade, foi respeitoso e não submisso. Obrigada a todos.

 

A próxima sessão do Café dos Blogues realiza-se no dia 31 de Março, às 19h, na Almedina do Atrium Saldanha.

 

Carla Quevedo

publicado por bloguedoscafes às 18:45
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3 comentários:
De dsgrsgrguilhilçjçjoçºgtuoçysetstrh a 25 de Fevereiro de 2011 às 22:47
danka shon
De Ivan Nunes a 1 de Março de 2011 às 02:24
Obrigado. Gostei de ler.
De Carla Hilário Quevedo a 1 de Março de 2011 às 18:02
Hello, Ivan!

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